07:04 | Author: Mundo Zazen


Extraído do livro Musashi, de Eiji Yoshikawa, romance épico baseado diretamente na história japonesa, que narra um período da vida do mais famoso samurai de todos os tempos. Trata-se de um diálogo, entre o monge Zen Takuan e Musashi quando ainda era um aprendiz de samurai. Esse dialógo foi travado quando o monge consegui prender Musashi numa árvore

A noite vinha chegando. Contrastando com a anterior, a lua brilhava branca no céu sem nuvens. Quando todos no templo se aquietaram adormecidos, o monge, cansado dos livros, calçou as sandálias e saiu.

-Takezo! - chamou. Um leve frêmito agitou os ramos, no topo do velho cedro. Gotas de sereno caíram ao seu redor formando uma chuva tênue e brilhante.

- Pobrezinho, já nem tem forças para responder. Takezo, ei, Takezo! Na mesma hora, um berro possante se fez ouvir:

- Que quer, monge dos infernos? - Era a voz estrondosa de Takezo, cujo ânimo nada lograva abater.

- Ora, ora ... - disse o monge, elevando uma vez mais o olhar. Vejo que ainda não perdeu a voz. Nesse passo, creio que é capaz de durar mais cinco ou seis dias. E então? Está com fome, Takezo?

- Não me faça perder tempo com conversa fiada, bonzo. Ande logo, corte minha cabeça de um vez!

- Nada feito, não ouso cortá-la descuidadamente. Do jeito como você é atrevido, sua cabeça é capaz de pular e morder meu pescoço, mesmo depois de separada do corpo. Bem, vamos apreciar o luar.

Takuan sentou-se sobre um pedra próxima.

- Espere aí que já lhe mostro ... Concentrando toda a força do corpo, Takezo pôs-se a sacudir o galho em que se achava amarrado. Folhas e fragmentos de casca choveram sobre o rosto de Takuan. O monge os removeu, limpou os ombros e o peito, e voltou uma vez mais o rosto para o alto:

- Isso, assim é que se faz, gostei de ver! É preciso sentir raiva, muita raiva para que realmente venham à tona a verdadeira força e o caráter de uma pessoa. Nestes últimos tempos, anda na moda rotular de intelectual e magnânimo o indivíduo imperturbável, que oculta sua raiva. Que jovens se ponham a imitar tal atitude, supostamente adulta, constitui indizível absurdo. Gente jovem não deve conter a raiva. Tem de expô-la! Vamos, ranja os dentes, sinta raiva, muita raiva, Takezo!

- Ah, não perde por esperar, bonzo maldito! Eu ainda vou conseguir desgastar essas cordas e rompê-las, e então aterrisarei ao seu lado e o materei a pontapés!

- Palavras promissoras! Sinto-me orgulhoso! Até que isso aconteça, aqui permanecerei, à espera. Contudo, pense bem: até quando será capaz de agüentar? Sua vida não se terá acabado muito antes de a corda arrebentar?

- Como é?

- Céus, que força impressionante! Você está conseguindo balançar até a árvore! Mas veja a terra: nem se abala, reparou? Sabe por quê? Porque não há força em seu ódio - seu ódio é pequeno, é privado, tem origem em rancores pessoais. A indignação de um homem deve ser desprovida de interesses pessoais, devotada à causa pública. Encolerizar-se levado por mesquinhas emoções pessoais é histeria feminina.

- Continue tagarelando à vontade; já vai ver o que lhe acontecerá!

- Não adianta, Takezo, desista! Desse jeito, só vai conseguir consar-se. Por mais que se debata, nunca conseguirá abalar a terra - nem sequer partir esse galho.

- Maldição!

- Se empregasse toda essa energia a favor, já não diria da pátria, mas ao menos de terceiros, você conseguiria mover céus e terra, até mesmo os deuses, sem falar nos simples mortais! Nesse ponto, Takuan passou a usar o tom que empregava em seus sermões:

- É lamentável, lamentável! Nasceu de humanos, e no entanto é uma fera: e selvagem como uma fera, sem progredir um passo sequer em direção à condição humana, este jovem tão formoso está condenado a terminar seus dias.

- Cale a boca! - gritou Takezo. Lançou na direção do monge uma cusparada que se pulverizou antes de atingir o solo.

- Agora escute, Takezo, preste atenção: sua força física tornou-o bastante presunçoso, não é verdade? Acreditava não haver no mundo ninguém mais forte que você, estou certo ou não? E agora, que tem a dizer do seu atual estado?

- Você não me derrotou pela força: nada tenho de que me envergonhar.

- Não importa se fiz uso de expedientes ou de palavras, o fato é que o derrotei. Prova disso é que, por mais que se mortifique, aqui estou sentado numa pedra como vencedor e você exibe sua triste figura, dependurado num galho de árvore. Tem idéia do que provocou esta situação?

- ...

- Se considerarmos apenas a força física, você é mais forte do que eu, tem toda a razão. Um homem não pode lutar com as mãos limpas contra um tigre, é claro. Mas um tigre é sempre um tigre, um animal inferior ao homem, não se esqueça.

- ...

- O mesmo se dá com a sua coragem: todas as suas ações, até agora, demonstraram temeridade, uma falsa coragem que deriva da ignorância. Não são atos de um ser humano, nada têm a ver com a verdadeira força de um bushi. O homem, o verdadeiro bravo, teme o que tem de ser temido, poupa e resguarda a vida - esta pérola preciosa - e procura morrer por uma causa digna. Percebe agora o que há de tão lamentável em tudo isso? Você veio ao mundo possuindo força física e firmeza de caráter, mas é inculto - aprendeu apenas o lado sombrio da arte guerreira, não procurou cultivar a sabedoria e a virtude. "Aperfeiçoar-se no duplo caminho das letras e das armas" - conhece a expressão? Mas que significa "duplo caminho"? Sem dúvida não significa que dois são os caminhos a serem percorridos em busca do aperfeiçoamento; significa, isto sim, que os dois caminhos, das letras e das armas, estão juntos e perfazem um único caminho. Compreendeu, Takezo? Calou-se a voz sobre a pedra, nada mais disse o vulto sob a árvore. A noite permaneceu negra e serena. Por instantes, reinou o silêncio.

Eiji Yoshikawa


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