10:16 | Author: Mundo Zazen

Entre os oitenta e quatro mil ensinamentos do budismo, o Ch’an [Zen em japonês] é o mais entusiasticamente estudado e discutido no mundo de hoje. Embora uma vez confinado ao leste onde teve origem, nos dias de hoje o estudo do Ch’an captou a atenção e o interesse do ocidente. Por exemplo, muitas universidades dos Estados Unidos estabeleceram grupos de meditação. É encorajador ver que a meditação está se espalhando da reclusão dos monastérios para o mundo moderno, onde está desempenhando papel muito importante.

Descrever o Ch’an não é uma tarefa fácil, porque o Ch’an não é algo que possa ser discutido ou expresso em palavras. No momento em que a linguagem é usada para explicar o Ch’an, não estamos mais considerando seu verdadeiro espírito. O Ch’an está além de todas as palavras, contudo não se pode deixá-lo sem expressão.

Qual é a origem do Ch’an? O Ch’an é a forma abreviada da transliteração chinesa do termo sânscrito dhyana, que significa contemplação tranqüila. Originado na Índia, a lenda conta que durante uma assembléia no Pico do Abutre (Gridhrakuta), o Buda apanhou uma flor e, levantando-a, mostrou-a à assembléia sem dizer palavra. Os milhões de seres celestiais e humanos que estavam reunidos na assembléia não entenderam o que Buda queria significar, exceto Mahakashyapa, que sorriu. Assim, o Ch’an foi transmitido sem utilizar nenhuma palavra oral ou escrita: foi transmitido de mente para mente. Mais tarde, o Ch’an foi introduzido na China. Durante a época do Sexto Patriarca Hui Neng, o Ch’an floresceu e desenvolveu-se em cinco escolas, que se tornaram as principais correntes do budismo chinês. O que é o Ch’an? O Mestre Ch’an Ching Yuang disse que o Ch’an é nossa mente. Esta mente não é aquela que discrimina e reconhece as coisas. Ela é nossa "verdadeira mente". Essa verdadeira mente transcende toda a existência tangível, contudo manifesta-se em toda existência do universo. Mesmo as coisas mais comuns no universo estão cheias das sutilezas do Ch’an.

O Mestre Ch’an Pai Chang disse que o Ch’an é a vivência diária. Ele disse que rachar lenha, carregar água, vestir-se, comer, ficar de pé e andar, tudo é Ch’an. O Ch’an não é algo misterioso. O Ch’an está relacionado com nossa vida diária. Portanto, cada um de nós pode experimentar o Ch’an. Hoje, o mundo interior das pessoas está freqüentemente em conflito com o mundo exterior, e a vida torna-se um fardo e um aborrecimento. Elas não podem ter prazer e captar os momentos oportunos do Ch’an na vida diária. Em contraste, os mestres Ch’an são bem humorados e interessantes. Apenas com poucas sentenças, eles podem livrar-se das nossas preocupações e inquietação e guiar-nos para a verdadeira felicidade. Esta transformação para a felicidade é bem parecida como fazer girar uma máquina complexa simplesmente pressionando um botão. Nenhum conhecimento complicado ou repetitivo é requerido. O estado da mente no Ch’an é muito alegre e vivaz. Qual é o valor do Ch’an ? Quando aplicado na vida diária, o Ch’an acrescenta colorido. Expande nossas mentes, enriquece nossas vidas, eleva nosso caráter, ajuda-nos a aperfeiçoar nossa moral e leva-nos ao estado em que estaremos tranqüilos quando nos encontrarmos na beira da vida e da morte. Quais foram então os ensinamentos maravilhosos que os mestres Ch’an legaram por escrito e passaram para nós? Como podemos tentar compreender o deleite do Ch’an através do uso da linguagem?

Ter e Não Ter

Estamos acostumados a pensar que toda existência pode ser diferenciada por nomes e relatadas em termos de dualidade. Na realidade, as coisas não podem ser divididas em metades distintas. Por exemplo, a maior parte das pessoas pensa usualmente que "ter" e "não ter" são dois conceitos opostos; se alguém "tem" então ele não pode estar no estado de "não ter"; se alguém "não tem" então ele não pode estar no estado de "ter". Para elas "ter" e "não ter" não são coexistentes. A fala e o comportamento dos mestres Ch’an transcendem os conceitos comuns de "ter" e "não ter" abraçando estes conceitos aparentemente opostos e alcançando um nível mais alto de "ter" e "não ter". Suas visões são diferentes daquelas das pessoas comuns; se nós nos aproximarmos deste modo de pensar com o nosso conhecimento habitual, não seremos capazes de entender verdadeiramente os mestres Ch’an.

Quando o Quinto Patriarca quis passar o manto e a tigela, símbolos do Dharma, a um sucessor, ele pediu a cada um de seus discípulos que escrevesse um verso no qual poderia julgar quem, entre eles, tinha realizado a Verdade. O manto e a tigela apenas seriam entregues àquele que se tornaria o Sexto Patriarca. Seu discípulo mais velho, Shen-hsiu, escreveu o seguinte verso:

O Corpo é uma árvore Bodhi

A mente é um espelho brilhante

Mantenha-o sempre cuidadosamente limpo

Para a poeira nele não assentar


Depois de ler este verso, todos elogiaram Shen-hsiu dizendo que seu estado de mente era na verdade superior. O Quinto Patriarca pensava de modo diferente e disse "Não é mau, mas o escritor dessa obra ainda não viu o caminho".

Hui Neng, que trabalhava no moinho de arroz, pediu nessa noite que alguém escrevesse também seu verso na parede:

Bodhi não tem nada a ver com árvores

E a mente não é um espelho brilhante

Desde que nada existe,

Como pode a poeira assentar

Depois de ler este verso, o Quinto Patriarca sabia que Hui Neng tinha visto a natureza vazia de todos os Dharmas e entrado no caminho de Buda. Assim, ele entregou o manto e a tigela da linhagem da escola Ch’an a Hui Neng que se tornou o Sexto Patriarca.

Shen-hsiu possuía um bom entendimento dos princípios do Ch’an e era o chefe dos discípulos do Quinto Patriarca. Como o Quinto Patriarca também havia instruído os outros discípulos a praticar de acordo com os versos de Shen-hsiu, todos do monastério esperavam que ele, certamente, se tornasse o Sexto Patriarca. Em vez disso, o Quinto Patriarca escolheu Hui Neng de quem ninguém ouvira falar antes. Embora Shen-hsiu tivesse alcançado um estado espiritual elevado, ainda estava apegado à mente de "ter" e seu conhecimento do Ch’an ainda não era o mais elevado. O caminho último é aquele que integra o "ter" como o "vazio" (shunyata). Esta é a diferença entre a mente Ch’an e a mente comum. Apenas quando pudermos transcender o "ter" e o "não ter" é que poderemos realizar a mente Ch’an última e experimentar a maravilhosa verdade do Ch’an. Vamos ilustrar com outro caso bem conhecido na história do Ch’an. Um dia, alguém perguntou ao Mestre Ch’an Chao Chou: "O que significa Chao Chou?" Chao Chou respondeu: "Portão leste, portão oeste, portão sul, portão norte".

Essa resposta pareceu totalmente irrelevante, mas de fato, esta verdade dos quatro portões tinha um significado oculto. Queria dizer que o Ch’an de Chao Chou era muito vasto e não era limitado por qualquer escola particular. O Ch’an não é, de modo alguma, confinado pelo espaço. Alguém perguntou a Chao Chou: "Os cães têm a natureza de Buda?

Chao Chou respondeu: "Sim".

Uma outra pessoa fez-lhe a mesma pergunta: "Os cães têm a natureza de Buda?"

Desta vez, Chao Chou respondeu: "Não".

Por que o Mestre Ch’an Chao Chou deu duas respostas diferentes para a mesma pergunta? Do ponto de vista terreno, era bastante contraditório, mas para o Mestre Ch’an Chao Chou, elas eram um modo vivo de ensinar. Quando ele disse: "sim" queria dizer que os cães têm o potencial para se tornar Budas. Quando ele disse "não", significava que os cães ainda não tinham se tornado Budas. Ao responder uma pergunta, os mestres Ch’an têm o cuidado de determinar a intenção e o estado de mente da pessoa que faz a pergunta antes de dar a resposta apropriada.

O Imperador Wu, da Dinastia Liang, era um dos mais devotados budistas da história chinesa. Durante seu reinado ele construiu muitos templos, estátuas de Buda, estradas e pontes. Foi nessa época que Bodhidharma veio da Índia para a China a fim de propagar o Dharma. O Imperador Wu perguntou-lhe: "eu fiz muitas coisas boas, quais os méritos que acumulei?" Bodhidharma respondeu friamente: "Nenhum mérito, de modo algum."

O Imperador não ficou muito feliz com a resposta e insistiu outra vez. Mais tarde, Bodhidharma foi embora porque não podia se entender com o Imperador Wu. Realmente como era possível que os bons feitos do Imperador Wu não tivessem produzido nenhum mérito? Quando Bodhidharma disse: "nenhum mérito, de modo algum", ele queria dizer que na mente de um mestre Ch’an não há este conceito dualístico de "ter" e não ter", como é experimentado pela mente comum.

De modo geral, percebemos e diferenciamos as coisas através de nossos sentidos. Por exemplo, quando olhamos para uma montanha ou um rio, vemos apenas uma montanha ou um rio. Depois que começamos a praticar o Ch’an, percebemos que tudo na existência é ilusório. Neste ponto, a montanha não é mais montanha e o rio não é mais um rio. Quando alcançamos completa realização, todos os conceitos relativos de "é" e "não é", "mente" e "matéria", tornam-se completamente integrados. Neste ponto, a montanha é outra vez uma montanha e o rio é outra vez um rio. A mente do Ch’an tornou-se unificada com o ambiente externo. O som que flui dos rios torna-se o Dharma maravilhoso. Montanhas verdes tornam-se os corpos puros dos Budas. O mundo do Ch’an é ilimitado quando a relativa fronteira do "ter" e "não ter" é destruída.

Movimento e Imobilidade

A doutrina básica do budismo são os Três Selos do Dharma, que declara que "Todos os samskaras (agregados) são impermanentes." "Todos os dharmas não têm um eu substancial", e "O nirvana é a paz verdadeira." O objetivo último de estudar o budismo é alcançar o estado de paz perfeita, nirvana. A "perfeita paz" é diferente do conceito de imobilidade. Em nossa vida diária, quando dizemos que aquele determinado objeto está se movendo, enquanto aquele outro está imóvel, é devido à ação da mente. Todos os fenômenos são criados por nossa mente. De fato, os fenômenos, eles mesmos, não fazem distinção entre o que está se movendo ou o que está imóvel. O que faz a distinção de ser é o apego em nossa mente que é causado pela ilusão. Se nós pudermos nos livrar deste apego, nossa mente estará então em paz e tudo ficará em harmonia.

Depois que Hui-Neng, o Sexto Patriarca, recebeu o manto e a tigela do Quinto Patriarca, ele se escondeu durante quinze anos antes de começar a ensinar. Um dia, quando chegou ao templo, ele viu duas pessoas discutindo calorosamente em frente a uma bandeira. Questionavam-se por que a bandeira estava se movendo. Um deles dizia: "Se não houver vento, como poderá a bandeira se mover? Assim, é o vento que está se movendo". O outro disse:

Se a bandeira não se move, como pode você saber se o vento está soprando?

Portanto é a bandeira que está se movendo".

Nesse ínterim, Hui-Neng ouvia pacientemente seus argumentos. Finalmente, lhes disse: "Por favor, não discutam mais. Não é o vento nem a bandeira que está se movendo. É sua mente que se move". Desta troca de palavras, podemos ver como os mestres Ch’an observam o mundo: eles olham dentro de si, mais do que para a aparência superficial dos fenômenos. Afinal, os fenômenos existem de maneira transitória e fragmentada. A diferença surge em nossas mentes por causa da agitação de nossos pensamentos. Quando nossas mentes estão tranqüilas, os objetos não são capazes de fazer distinções por si mesmos. Contudo, quando nossas mentes estão agitadas, diferenciamos os fenômenos, causando distinção e separação entre nós e os outros. Portanto, a chave para realizar o estado no qual o movimento e a imobilidade estão em harmonia, e não mais diferenciado, é quando tivermos de fato eliminado todas as discriminações que surgem das diferenças percebidas. Deste modo podemos alcançar a paz perfeita. O Imperador Hsien Tsung da Dinastia T’ang era um budista muito devotado e queria mandar alguém a Feng Hsiang para buscar alguma das relíquias de Buda. Yu Han, um oficial do governo, tentou dissuadir o imperador dessa empreitada. Hsien Tsung ficou muito zangado com ele e demitiu-o do posto da província de Ch’ao Chou.

Ch’ao Chou estava localizada na parte sudeste da China, que não era muito civilizada naquele tempo. Contudo, um monge bem educado e muito culto chamado Mestre Ch’an Ta Tien estava vivendo lá. Era muito respeitado pelas pessoas do local.

Sendo um Confuciano erudito, Yu Han era muito orgulhoso de si e, naturalmente, desprezava o Mestre Ch’an. No entanto, já que não havia ninguém vivendo perto de Ch’ao Chou com quem ele pudesse ter uma conversa inteligente, ele, relutantemente, foi visitar o Mestre Ch’an. Quando Yu Han chegou ao templo, o Mestre Ch’an estava meditando. Yu Han não queria perturbá-lo, assim, decidiu ficar do lado de fora e esperar. Depois de um longo tempo, o Mestre Ch’an ainda permanecia imóvel. Yu Han começou a ficar impaciente. Vendo isso, o discípulo do Mestre Ch’an murmurou para o mestre: "Primeiro, modifique-se através da meditação concentrada, depois erradique a arrogância através da sabedoria". Isto foi dito para o mestre Ch’an, porém, de fato, foi dirigido a Yu Han. O que o discípulo estava indiretamente dizendo era: A meditação do Mestre é um ensinamento sem valor para você; ele está testando sua paciência. No momento em que você passar no teste, ele usará suas palavras de sabedoria para livrá-lo de sua arrogância. Neste momento, Yu Han ficou convencido de que a erudição e a cultura do Mestre Ch’an era uma verdade profunda. Eles mais tarde tornaram-se bons amigos.

Pelos exemplos acima, podemos ver que na mente dos mestres Ch’an, mobilidade e imobilidade são intrinsecamente unidas. Este entendimento é refletido no modo como eles ensinam. No decurso de seus ensinamentos, os Mestres Ch’an, algumas vezes, instruem pelo silêncio e outras através de poderosas pregações, como o rugir de um leão. Cada movimento de um Mestre Ch’an é cheio de sutilezas do Ch’an – seja um lembrete curto, gentil ou uma reprimenda vigorosa; um avanço ou um recuo de uma postura; uma pergunta ou uma resposta; um franzir de sobrolho ou um sorriso; beber chá ou comer arroz. Para a maior parte de nós, nossas experiências diárias de vida tendem a convencer-nos que mobilidade e imobilidade são dois estados distintos. Contudo, mobilidade e imobilidade, como acontece através da meditação concentrada do Ch’an são uma verdade unificada, perfeitamente livre e natural.

Prática e Compreensão

Algumas pessoas dizem que o budismo é uma filosofia. Essa é uma afirmação do ponto de vista intelectual; contudo, a real essência do budismo é a prática. A Verdade pode ser realizada apenas através da prática.

O real espírito do budismo perder-se-á se nos limitarmos apenas ao estudo das doutrinas e negligenciarmos a prática religiosa. Para um praticante genuíno do budismo, discussões intelectuais sobre o budismo sem levar em conta a prática é apenas uma forma frívola de debate e deveria ser evitado. Se tratarmos o budismo meramente como uma filosofia, nunca experimentaremos sua essência. Porque no budismo, compreensão e prática são igualmente enfatizadas. Na escola Ch’an, o que é importante é a experiência da prática real, e não a crença na linguagem escrita ou falada.

Na escola Ch’an, o cultivo e a realização do Caminho são esforços pessoais. Quanto mais extenso for o cultivo, mais perto estaremos do despertar. Se insistirmos apenas na teoria ou simplesmente decorarmos o que foi ouvido, não conseguiremos nenhum resultado. É como levar um cavalo sedento para beber água; se ele se recusar a beber, eventualmente morrerá de sede. De igual modo, todos os ensinamentos nos sutras budistas servem como uma bússola para guiar-nos em direção à verdade. Depois de compreendê-los precisamos praticá-los de acordo com o que aprendemos para provar do doce orvalho do Dharma. Portanto o ditado seguinte lembra-nos que praticar é "como beber água - apenas você saberá por si mesmo se ela é fria ou quente". Se quisermos verdadeiramente compreender o budismo e o Ch’an, compete-nos praticar e alcançar a realização. Ninguém pode nos dizer o que o budismo e o Ch’an realmente são. Como os mestres Ch’an praticam e alcançam a realização? Eles atingem a realização vivendo na comunidade da Sangha e praticando a cada momento de suas vidas cotidianas. Os virtuosos do passado sempre diziam: "Apanhar lenha e carregar água tudo é Ch’an. Em nossa vida diária, podemos praticar enquanto colocamos nossas roupas, fazemos nossas refeições, acordamos, dormindo e mesmo indo ao banheiro".

O começo do Sutra do Diamante descreve como Buda levava uma vida de sabedoria enquanto colocava seu manto, carregava sua tigela, e saía para pedir esmolas. Assim como todos nós, as pessoas iluminadas têm que colocar roupas e comer; no entanto, elas fazem isso de modo completamente diferente do resto de nós. Assim dizem que o budismo não é para ser encontrado fora da vida do mundo.

Nós sempre acalentamos a concepção errada de que temos que nos entranhar nas montanhas ou florestas para praticar e alcançar a realização. Realmente, não precisamos nos isolar para praticar. Se pudermos extinguir o fogo do ódio em nossos corações e mentes, então todo ambiente no qual nos encontrarmos será um lugar fresco e confortável. Podemos até praticar no meio do mercado mais barulhento.

Se tivermos um entendimento completo dos ensinamentos do budismo e se praticarmos de acordo com eles, seremos capazes de fazer duas vezes mais progressos com metade do esforço. Por exemplo, o ensino básico do budismo é a Gênesis Condicionada, que significa que todo fenômeno existente neste universo acontece devido à reunião de condições e causas apropriadas e cessarão de existir quando as causas e condições necessárias não estiverem mais presentes. Não há tal coisa como um criador do universo para moldar os eventos de nossas vidas; é a nós que compete fazer os requeridos esforços.

Do ensinamento da Gênesis Condicionada, podemos inferir que todos os seres são iguais e têm a Natureza de Buda. Todos os seres têm o potencial de se tornarem Buda. O processo que leva à purificação deste potencial é dependente da determinação e prática do indivíduo. Nossas próprias ações determinam nosso futuro. Assim, o correto entendimento e a prática diligente do ensinamento budista ajudar-nos-ão a desenvolver uma perspectiva progressista e positiva.

Do ensinamento da Gênesis Condicionada, podemos também inferir que este universo é uma harmoniosa unidade. Todos os fenômenos e todos os seres são interdependentes. Com este entendimento, podemos facilmente ver como a centralização é contraditória à harmonia e porque a distinção entre eu versus outros deveria ser abolida. A fim de viver em harmonia com os outros, deveríamos direcionar nossos cuidados e ajudar a eles e não ficar centrado em nós mesmos.

Pureza e Impureza

A própria natureza não faz nenhuma distinção entre pureza e impureza, ou beleza e feiúra. São nossas preferências e aversões subjetivas que fazem a distinção.

É dito no Sutra Vimalakirti: "Quando nossa mente for pura, a terra será pura". As mentes comuns, contudo, são nubladas pelas "cinco poeiras" (os objetos que são percebidos pelos cinco sentidos) e enganadas pela aparência exterior de todos os fenômenos, evitando que a natureza de todos os dharmas seja vista. As mentes dos mestres Ch’an realizados são puras e desobstruídas. Suas mentes são a Mente de Buda e elas podem ver a natureza real de todas as coisas. Para eles não há diferença entre bem e mal, beleza e feiúra, errado ou certo, enquanto que um ser comum vê o mundo corrupto e impuro. Os mestres Ch’an vêm o mundo como a terra pura de Buda. O estado Ch’an da mente não é alguma coisa que se pode fingir ou argumentar. Uma vez o mestre Ch’an, Chao Chou fez uma aposta com um discípulo seu, Wen Yen. Quem pudesse comparar-se com a coisa mais baixa e insignificante seria o vencedor.

O mestre Chao Chou disse: "Eu sou um burro".

Wen Yen disse: "Eu sou o traseiro do burro".

Chao Chou disse: "Eu sou o excremento do burro".

Wen Yen disse: "Eu sou a larva dentro do excremento". O mestre Chao Chou ficou aturdido e não pôde continuar, mas perguntou: "O que você está fazendo no excremento?"

Wen Yen respondeu: "Estou me refrescando do calor do verão!" Como as mentes dos mestres Ch’an são puras, eles se sentem confortáveis até mesmo nos lugares considerados os mais imundos. Para eles, todos os lugares são a terra pura; portanto, sentem-se livres onde quer que vão. Um dia, o Mestre Ch’an Yi Hsiu saiu com seu discípulo. Os dois chegaram à praia de um rio onde uma mulher estava hesitando atravessar a corrente veloz da água. Por compaixão, o Mestre Yi Hsiu carregou a mulher através do rio em suas costas. Tendo feito isso, mais tarde esqueceu-se do fato. Seu discípulo, contudo, estava muito incomodado pelo fato do mestre ter carregado uma mulher em suas costas. Um dia, o discípulo disse ao Mestre Yi Hsiu: "Mestre, uma coisa está me incomodando muito. O senhor pode me ajudar a resolver este problema?"

O Mestre Ch’an respondeu: "Oh! O que é?"

O discípulo disse: "O senhor sempre nos ensinou a guardar distância de mulheres. Mas há vários meses atrás, o senhor carregou uma mulher através do rio. Isto não é contraditório a seus ensinamentos?" Ao ouvir isso, o Mestre Ch’an Yi Hsiu exclamou: "Ah! Eu apenas carreguei aquela mulher de um lado do rio para o outro e ela ficou lá, mas você, coitado, tem-na carregado por aí em suas costas por vários meses!" Por esta história, podemos ver que o estado de mente dos mestres Ch’an é aberto e indiscriminado. Os mestres Ch’an não discriminam entre o puro e o impuro, o macho e a fêmea. Eles compreendem que a mente, o Buda, e todos os seres são iguais.

Prática do Ch’an

Hoje conversei com vocês durante um longo tempo. Fico imaginando se vocês foram capazes de provar um pouco do maravilhoso sabor do Ch’an. Contudo, o Ch’an não é alguma coisa que se possa experimentar através de meras palavras; é necessário ser praticado. Gostaria de dar algumas sugestões de como praticar o Ch’an.

Investigar o Ch’an através da dúvida — Em outras religiões, não há lugar para a dúvida; temos que acreditar incondicionalmente. Mas o Ch’an encoraja-nos a começar pela dúvida. Uma pequena dúvida levará a uma pequena realização. Sem a dúvida, não haverá realização. Procure a realização através da contemplação — Uma vez a dúvida despertada, precisamos contemplá-la a fim de alcançar a realização. Kung-an e hua-tou como "Qual era nossa face original antes de termos sido gerados pelos nossos pais?" "Os cães têm a Natureza de Buda?", são planejadas para levantar dúvida pelo praticante Ch’an. Contemplação diligente do Kung-an [koan] e Hua-Tou levarão eventualmente à realização. Estudo do Ch’an pelo questionamento — Quando contemplando hua-tou a coisa mais importante é continuar se questionando até a realização ser alcançada. É como tentar apanhar um ladrão; temos que continuar perseguindo sem desistir. Por exemplo, quando contemplando "Quem está recitando o nome do Buda" podemos perguntar, "É a mente que está recitando?" "Quem é a mente?" Se a mente sou eu, então é a boca que está recitando o nome do Buda, não eu?" "Se a boca sou eu, então é o corpo que faz prostrações ao Buda, não eu?" "Se o corpo sou eu, então são os olhos que prestam homenagem à imagem de Buda, não eu?" Se prosseguirmos a inquirir desse modo, a realização será alcançada. Realize o Ch’an através da experiência pessoal — Para praticar o Ch’an, temos que começar duvidando, contemplando, questionando; mas o estágio final e mais importante é a experiência pessoal. O Ch’an não é algo que é expresso em palavras não contempladas por nossos corações e mentes; de fato, temos que abandonar tudo isso para experimentar o Ch’an.

Realização é o estado da mente que não pode ser descrito em palavras. O Ch’an pode apenas ser experimentado por aqueles que o alcançaram. Você já ouviu um riacho murmurante? Isto é o som do Ch’an Você já olhou para as folhas verdes de um salgueiro? É a cor do Ch’an. Você já viu o coração do lótus florescer? É a mente do Ch’an. Através da conversa de hoje, espero que vocês encontrem a mente do Ch’an.

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