09:18 | Author: Mundo Zazen


Como é a pessoa individual que experimenta prazer e dor, gera conflitos e acumula carma – todo o ruído e a confusão sendo produzidos pelo eu –, a análise deveria começar por você mesmo. Depois, quando descobrir que essa pessoa não possui existência inerente, poderá ampliar essa descoberta para as coisas que aprecia, sofre e usa. Nesse sentido, a pessoa é primordial.

É por isso que Nagarjuna primeiro apresenta a inexistência inerente do eu de uma pessoa e depois a usa como exemplo para a inexistência inerente dos fenômenos. Sua Preciosa Guirlanda de Conselhos diz:Uma pessoa não é terra, não é água,
Não é fogo, nem vento, nem espaço,
Não é consciência e não é todas essas coisas.
Que pessoa existe além de tudo isso?
Assim como deve ser constituída na dependência da agregação dos seis constituintes.
Uma pessoa não é estabelecida como sua própria realidade.
Devendo ser assim constituída na dependência de uma agregação
Cada um dos constituintes não é tampouco estabelecido como sua própria realidade.

Assim como uma pessoa não existe inerentemente porque é dependente de uma reunião dos seis constituintes – terra (as substancias duras do corpo), água (fluidos), fogo (calor), vento (energia, movimento), espaço (as cavidades do corpo) e consciência – tampouco os constituintes existem inerentemente, porque cada um é composto na dependência de suas próprias partes.

É mais fácil compreender exemplos do que aquilo que eles exemplificam. Buda fala sobre isto no Sutra do Rei das Meditações:

Assim como você chegou a conhecer a falsa discriminação de si mesmo,
Aplique isso mentalmente a todos os fenômenos.
Todos os fenômenos são completamente desprovidos de sua própria existência inerente, como o espaço.
Através de um, todos são conhecidos.
Através de um, todos são vistos também.

Quando sabe bem como o “eu” realmente é, você pode compreender todos os fenômenos internos e externos usando o mesmo raciocínio. Vendo de que maneira um fenômeno – você mesmo – existe, você também pode conhecer a natureza de todos os outros fenômenos. É por isso que o procedimento pra a meditação é primeiro esforçar-se para gerar percepção de sua própria falta de existência inerente e depois trabalhar para perceber o mesmo com relação a todos os demais fenômenos.

No budismo o termo “eu” tem dois significados que devem ser diferenciados para se evitar confusão. Um significado de eu é “pessoa” ou “ser vivo”. Este é o ser que ama e odeia, que pratica ações e acumula carma bom e mau, que experimenta os frutos dessas ações, que renasce na existência cíclica, que cultiva caminhos espirituais e assim por diante.

O outro significado do eu ocorre na expressão “inexistência do eu”, em que se refere a um estado de existência falsamente imaginado, super-concretizado de existência chamado “existência inerente”.

A ignorância que se prende a tal exagero é na verdade a fonte da destruição, a mãe de todas as atitudes erradas – talvez pudéssemos dizer diabólicas. Ao observar o “eu” que depende de atributos mentais e físicos, essa mente o exagera, tomando-o por um ser inerentemente existente, embora os elementos que estão sendo observados não contenham de maneira alguma esse ser exagerado.

Qual é o estatuto real de um ser sensível? Assim como um carro existe na dependência de suas partes, como rodas, eixos, e assim por diante, um ser sensível também é convencionalmente constituído na dependência da mente e do corpo. Não há pessoa alguma a ser encontrada quer separada da mente e do corpo, quer dentro da mente e do corpo.

APENAS NOMEEsta é a razão por que o eu e todos os outros fenômenos são descritos no budismo como “apenas nome”. O significado disto não é que o eu e todos os outros fenômenos sejam apenas palavras, já que as palavras para esses fenômenos referem-se de fato a objetos reais. Significa, isto sim, que tais fenômenos não existem em e por si mesmos; a expressão “apenas nome” elimina a possibilidade de que eles sejam estabelecidos a partir dos próprios objetos. Precisamos deste lembrete porque o eu e outros fenômenos não parecem ser meramente constituídos por nome e pensamento. Ao contrário.

Por exemplo, dizemos que o Dalai Lama é um monge, um ser humano tibetano. Não parece que você esta dizendo isso, não com relação ao seu corpo ou a sua mente, mas sobre algo separado? Sem parar de pensar sobre isso, parece haver um Dalai Lama separado do seu corpo, e independente até de sua mente. Ou considere a si mesmo. Se seu nome for Jane, por exemplo, dizemos, “o corpo de Jane, a mente de Jane”, de modo que você tem a impressão de que há uma Jane que possui sua mente e seu corpo, e existem uma mente e um corpo que Jane possui.

Como você pode compreender que essa perspectiva é equivocada? Concentre-se no fato de que não há nada dentro da mente ou do corpo que possa ser “eu”. Mente e corpo são vazios de um “eu” tangível. Mais exatamente, assim como um carro é constituído da dependência de suas partes e não é nem mesmo a soma de suas partes, assim o “eu” depende da mente e do corpo. Um “eu” que não dependa da mente e do corpo não existe, ao passo que um “eu” compreendido como dependente da mente e do corpo existe em conformidade com as convenções do mundo. Compreender esse tipo de “eu” que não pode ser encontrado de maneira alguma na mente ou no corpo, não é sequer a soma de mente e corpo, mas só existe através do poder de seu nome e de nossos pensamentos, é útil quando nos esforçamos por nos ver como realmente somos.

[...]

Extrato do livro: “Como saber quem você é” – Dalai Lama

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