18:30 | Author: Mundo Zazen


Quando Xaquiamuni Budha girou pela primeira vez a Roda do Dharma, Ajnata-kaundinya despertou e, em seu último discurso do Dharma, foi Subhadra quem se iluminou. Todos que deveriam ser despertos assim o foram. Entre duas árvores sala, Budha estava quase entrando em Parinirvana. Era o meio de uma noite calma, sem sons. Para o bem de todos os seus discípulos, Xaquiamuni Budha fez uma breve explanação dos fundamentos do Dharma:

Oh, Monges! Depois de minha morte respeitem e compartilhem os Preceitos.

Manter os Preceitos é como encontrar uma luz na escuridão, é como uma pessoa pobre encontrar um grande tesouro. Saibam que os Preceitos são seu mestre. Manter os Preceitos é Me manter sempre vivo neste mundo. Aqueles que mantém os Preceitos não devem se dedicar ao comércio e não devem possuir campos e moradias, não devem governar sobre outras pessoas, nem manter servos ou animais. Devem evitar manter plantações e acumular bens, da mesma forma que evitariam uma fogueira. Não devem cortar grama nem árvores, arar o solo ou cavar a terra.

Misturar remédios, ler a sorte, observar a posição das estrelas, predizer as fases da lua, calcular calendários e dias auspiciosos, são coisas que não devem ser feitas.

Controlem seus corpos, comam nas horas certas, se conduzam em pureza. Não se envolvam nos afazeres mundanos, nem ajam como mensageiros. Não façam mágicas, misturem poções e nem se tornem íntimos com pessoas eminentes. Tudo isso não deve ser feito. Com a mente clara e correta atenção, vocês devem procurar o despertar. Vocês não devem esconder seus erros, exprimir pontos de vista errôneos, nem liderar pessoas erradamente. Ao receber as quatro espécies de ofertas, saibam a quantia correta e fiquem satisfeitos. Não acumulem ofertas.

Agora vou falar, brevemente, em como proteger os Preceitos.

Os preceitos são a base da verdadeira libertação, por isso são chamados de Pratimoksa – o que leva a libertação. A confiança nos Preceitos faz surgir todos os dhyanas e a sabedoria da extinção do sofrimento. Por esta razão, Oh Monges!, vocês devem manter os Preceitos e não os devem infringir. Se vocês mantiverem os Preceitos obterão o Bem. Se não os mantiverem, nenhum mérito surgirá. Assim saibam que os Preceitos são o local onde vive a equanimidade, que é o mérito fundamental.

Oh, Monges! Vocês que mantém os Preceitos devem controlar os cinco sentidos.

Não deixem os sentidos desprotegidos, permitindo que os cinco desejos penetrem. È como o vaqueiro que brande sua vara para evitar que o gado invada a plantação de outra pessoa. Se há indulgência nos cinco sentidos os cinco desejos ficarão à solta e vocês serão incapazes de controlá-los. Novamente repito, é como um cavalo bravo que não pode ser controlado pelo chicote e cai numa vala levando seu cavaleiro com ele. Da mesma forma, o sofrimento de ser ferido por um ladrão, dura apenas uma vida; enquanto que o mal causado pelos cinco sentidos, se estende através de muitas vidas criando grande dor. Não negligenciem a atenção. É por esta razão que a pessoa sábia controla seus sentidos, não os segue, mantendo-os guardados, não permitindo que vagueiem ao léu e mesmo quando os libertam, logo se extinguem.

A mestra dos cinco sentidos é a mente. Por esta razão vocês devem controlar suas mentes. A mente deve ser mais temida que as cobras venenosas, bestas selvagens ou assaltantes vingadores, mesmo grandes incêndios e destrutivas enchentes não podem a ela ser comparadas. É como uma pessoa que, correndo celeremente com uma jarra de mel nas mãos, olhe apenas para o mel e não veja um grande buraco. Repito, é como um elefante enlouquecido sem uma corrente ou um macaco pulando nas árvores, ambos são muito difíceis de se controlar. Dominem a mente, imediatamente, e não a deixem desembestar. Se cederem, perderão a boa sorte de terem nascido humanos. Se mantiverem a mente focalizada, não haverá algo que não possam obter. Por esta razão, Monges, vocês devem se esforçar com muita diligência, para manter a mente sobre controle.

Oh, Monges! Quando receberem comida e bebida, vocês devem considerá-las como remédio.

Não peguem mais daquilo que gostam e menos daquilo que desgostam. Apenas aceitem o suficiente para manter suas vidas e evitar a fome e a sede. Assim como a abelha apanha apenas a doçura das flores sem lhes manchar a cor ou tirar sua fragrância, assim vocês devem fazer. Aceitem apenas o suficiente das ofertas para evitar tristezas. Não peçam muito para não destruir boas intenções. Isto pode ser comparado com a pessoa sábia que conhece a força de seu touro e não o sobrecarrega.

Oh, Monges! Durante o dia, pratiquem com determinação o bom ensinamento.

Não percam tempo. Da mesma forma, à noite e pela manhã antes do amanhecer, não negligenciem seus esforços. No meio da noite, recitem os Sutras. Assim vocês devem ordenar suas vidas. Não deixem que a vida passe à toa, sem obter a realização, apenas dormindo. Vocês devem se lembrar que o mundo todo está sendo consumido pelo fogo da impermanência. Rapidamente procurem pelo despertar e não pelo dormir. As paixões estão sempre prontas para matar uma pessoa, mais do que um inimigo mortal. Como vocês podem ficar dormindo e abaixar a guarda? As paixões são como uma cobra venenosa dormindo em sua mente. Não são diferentes de uma cobra negra dormindo em seu quarto, espante-a com a ponta aguda dos Preceitos. Só depois que a cobra sair, vocês poderão dormir tranqüilos. Se dormirem enquanto a cobra ainda está lá, vocês estarão agindo sem consciência. Entre as coisas refinadas, a tecedura da consciência é a melhor. A consciência é como uma agulha de ferro com a qual se pinçam os enganos. Assim sendo, Monges, sempre sigam sua consciência e não a ignorem nem por um só momento. Esquecendo-se da consciência, perdem-se todos os méritos. Aqueles que conhecem o pudor, sabem do bom ensinamento. Aqueles que não conhecem o pudor, não são diferentes de bestas selvagens.

Oh, Monges! Se alguém vier desmembrá-los, articulação por articulação, vocês devem controlar a mente e não permitir que a raiva surja.

Da mesma forma vocês devem proteger suas bocas, caso contrário, palavras más sairão delas. Se vocês permitirem pensamentos de raiva, vocês estarão obstruindo seus próprios caminhos e perdendo o benefício de seus méritos. A paciência é uma virtude que nem mesmo mantendo os Preceitos, nem as práticas ascéticas podem igualar. As pessoas que praticam a paciência, podem verdadeiramente ser chamadas de poderosas, de seres superiores. Aquelas pessoas que não podem aceitar o veneno do abuso com paciência e alegria, como se estivessem bebendo o néctar celestial, não podem ser chamadas de pessoas que adentraram o Caminho. Por que? Porque os efeitos maléficos da raiva quebram todos os bons ensinamentos e destroem o bom nome, de forma que, tanto no presente como no futuro, as pessoas não sentirão prazer ao vê-los. Vocês devem saber que a raiva é mais poderosa que um fogo ardente. Sempre se protejam e não permitam que a raiva penetre. Nenhum ladrão rouba mais méritos do que a raiva. Leigos, cheios de desejos, sem praticar o Caminho, não conhecem os ensinamentos para se poderem se controlar, mesmo a raiva não é desculpável neles. Aqueles que deixaram o lar e praticam o Caminho do não desejo nunca devem permitir que a raiva surja, assim como o trovão e o raio não ocorrem num céu suave e claro.

Oh, Monges! Lembrem-se de suas cabeças raspadas.

Vocês já abandonaram a ornamentação, usam roupas simples e praticam a mendicância. Vejam-se assim: se o orgulho surgir, vocês devem extingui-lo rapidamente. Cultivar o orgulho não é apropriado mesmo para aqueles vivendo na vida comum, quanto mais para aqueles que deixaram seus lares para entrar no Caminho, aqueles que controlam seu corpo e praticam o esmolar para obter a libertação.

Oh, Monges! Uma mente desonesta é incompatível com o Caminho.

Por esta razão vocês devem cultivar honestidade. Vocês devem saber que desonestidade só produz enganos. Alguém que entrou o Caminho, logo, que não vive neste plano. É por isso, Monges, que vocês devem ter a mente correta e agir baseados na honestidade.

Oh, Monges! Vocês devem saber que uma pessoa de muitos desejos, procurando grandiosidade apenas para si mesmo, também sofre muito.

A pessoa de poucos desejos, nem procurando e nem desejando nada, não tem este pesar, esta é a simples razão pela qual vocês devem praticar o mínimo de desejos. Mais do que isso: devem praticar poucos desejos porque é a fonte de todos os bons méritos. Uma pessoa de poucos desejos não manipula a mente dos outros através da desonestidade, nem é levado pelos seis órgãos dos sentidos. A mente daqueles que praticam poucos desejos é tranqüila e não tem preocupações. Seja o que tiver é suficiente, nunca há insuficiência. Para aqueles que tem poucos desejos, o Nirvana existe. Esta é a prática de poucos desejos.

Oh, Monges! Se vocês querem se libertar de todo o sofrimento, vocês devem conhecer o contentamento.

O estado de contentamento é a condição de prosperidade e bem estar. Aquele que está contente fica feliz mesmo quando tem apenas a terra para se deitar sobre ela. Aquele que não fica contente, está insatisfeito mesmo em palácios celestiais. Quem não conhece o contentamento é pobre, apesar de todas as riquezas que possa ter. Alguém que é contente é rico, não importando quão pobre possa ser. Quem não conhece o contentamento é sempre arrastado por desejos provocados pelos seis sentidos e deve ser apiedado por quem é contente. Esta é a prática do contentamento.

Oh, Monges! Se vocês procuram pela benção da tranqüilidade irremovível, vocês devem abandonar o tumulto da sociedade e viverem a sós em um retiro quieto.

Aqueles que vivem em solidão, são honrados por Indra e por todos os deuses. Por isso vocês devem deixar tanto as suas como as outras comunidades e viverem a sós em locais remotos, com a intenção de extinguir a origem do sofrimento. Aqueles que gostam de companhia, recebem os sofrimentos de estar em companhia, assim como: quando um bando de pássaros de junta para viver em uma árvore, ela corre o risco de murchar. Se estiverem apegados ao mundo, irão afundar no sofrimento comum, assim como um velho elefante se afoga na areia movediça e dali não consegue sair. Tal é a prática do isolamento.

Oh, Monges! Se vocês diligentemente praticarem o esforço correto, nada será difícil.

Por isso vocês devem diligentemente praticar o esforço correto, assim como o constante gotejar da água fura uma rocha. Se a mente do praticante for inclinada à indolência, será como alguém que esfrega a madeira para iniciar o fogo e descansa antes da madeira ficar quente. Mesmo que esta pessoa queira o fogo, a faísca não acontece. Tal é a prática do esforço correto.

Oh, Monges! Não percam a atenção quando procurarem por um mestre ou por um amigo.

Se vocês não perderem a atenção, as paixões não poderão entrar. Por isso, Monges, sempre mantenham a atenção. Se perderem a atenção, perderão todo o mérito. Se o poder de sua atenção for forte, você não poderá ser ferido pelos desejos provocados pelos sentidos, mesmo que surjam. Da mesma maneira que, se entrar numa batalha usando uma armadura, não terá o que temer. Esta é a prática de não perder a atenção.

Oh, Monges! Se unificarem suas mentes, sua mente estará concentrada.

Quando a mente estiver concentrada, vocês poderão compreender as marcas do surgir e do extinguir de todas as coisas no mundo. Por isso, Monges, vocês devem sempre e diligentemente praticar a concentração. Se obtiverem concentração, sua mente não ficará dispersa. Assim como numa casa, que para se conservar água mantém-se as barragens em bom estado, o praticante; para o bem da água da sabedoria, deve concentrar-se em meditação e não permitir que esta vaze. Tal é a prática da concentração.

Oh, Monges! Se vocês tiverem sabedoria não terão ganância.

Sempre se questionem e não permitam que a sabedoria se perca. Então, através dos Meus ensinamentos vocês poderão se libertar. Se assim não o fizerem não serão considerados seguidores do Caminho, nem mesmo leigos serão. Em verdade, a sabedoria é um navio forte que os leva através do oceano da velhice, doença e morte. Repito, é uma grande lâmpada iluminando a escuridão da ignorância. É um remédio maravilhoso para todas as doenças. É um machado afiado que corta a árvore das paixões. Por isso, Monges, através do ouvir, do pensar e do praticar, vocês devem aumentar sempre a sabedoria. Se vocês possuírem o brilho da sabedoria poderão ver claramente, mesmo com seus olhos de carne. Tal é a sabedoria.

Oh, Monges! Se vocês se engajarem de forma leviana em conversas inúteis suas mentes ficarão confusas.

Mesmo que tenham abandonado sua casa, não poderão obter a libertação. Por isso, Monges, devem imediatamente abandonar pensamentos confusos e conversas desnecessárias. Se quiserem obter a benção de Nirvana, vocês devem apenas extinguir o mal de falar à toa. Tal é a prática de evitar a fala fútil.

Oh, Monges! De todas atividades meritórias vocês devem, de todo coração, concentrarem-se em afastar qualquer forma de indulgência pessoal, assim como vocês evitariam um ladrão.

O benéfico Ensinamento de Grande Compaixão do Mais Honrado se completou.

Monges, vocês devem se esforçar diligentemente na prática do Ensinamento. Tanto se viverem nas montanhas ou à beira d'água, sob uma árvore num local remoto ou num aposento sossegado, coloquem sua atenção no Ensinamento, com esforço correto. Se morrerem em vão, sem terem feito nada, vocês se arrependerão no futuro. Sou como um bom médico que, reconhecendo uma doença, prescreve a receita apropriada. Se o remédio é tomado ou não, já não é de responsabilidade do médico. Novamente digo: sou como um bom guia que mostra às pessoas o melhor caminho. Se elas não o seguirem, sabendo de sua existência, não é culpa do guia.

Oh, Monges! Se tiverem qualquer dúvida sobre as Quatro Nobres Verdades, perguntem imediatamente. Não guardem as dúvidas sem procurarem resolvê-las.

Por três vezes, o mais Honrado, exortou os Monges dessa forma. Mas ninguém na assembléia falou, pois ninguém tinha dúvidas.

Nesse momento Anuruddha, percebendo a mente dos que estavam ali reunidos, disse a Buda:

- Honrado do Mundo! Todos estes Monges tem certeza e não tem dúvidas em relação as Quatro Nobres Verdades. Se, nesta assembléia, houver alguém que ainda não completou sua tarefa ao ver a passagem de Buda, eles se lamentarão. Mesmo aqueles que apenas agora penetraram o Ensinamento, obterão o despertar ao ouvir as palavras de Buda. Assim como na escuridão da noite, um raio ilumina a estrada. Se houver aqueles que já tenham cumprido suas tarefas e cruzado o mar de sofrimento, eles terão apenas este pensamento: Quão rápida é a passagem do Mais Honrado do Mundo!

Quando Anuruddha falou estas palavras, todos na assembléia claramente compreenderam o significado das Quatro Nobres Verdades. Mas o Honrado do Mundo, movido por sua infinita Compaixão, querendo que todos na grande assembléia se tornassem mais fortes, ainda falou assim:

Oh, Monges! Não se lamentem. Mesmo que Eu vivesse no mundo, tanto quanto um kalpa, nosso estar juntos um dia acabaria. Não existe encontro sem despedida.

O Ensinamento que beneficia tanto a si próprio como aos outros, se completou. Mesmo que eu vivesse mais, não haveria nada a adicionar ao Ensinamento. Aqueles que não foram despertados possuem condições para obter o despertar. Se todos os Meus discípulos, de geração em geração, a partir de agora, praticarem o Ensinamento, o Corpo do Dharma do Tathagata existirá para sempre e nunca será destruído. Logo, saibam que tudo no mundo é impermanente: o que se junta inevitavelmente se separa. Não se preocupem, pois esta é a natureza da vida. Diligentemente, pratiquem com esforço correto e procurem a libertação imediatamente. Com a luz da sabedoria, destruam a escuridão da ignorância. Nada é seguro. Tudo nessa vida é precário.

Agora obtenho o Parinirvana. É como se livrar de uma doença maléfica. Esta coisa que descartamos e que chamamos de corpo, está afogado no mar do nascimento, velhice, doença e morte. Como poderia haver alguma pessoa sábia que não se alegrasse em se desfazer disso?

Oh, Monges! Vocês devem sempre, de todo o coração, procurar o Caminho da Libertação.

Todas as coisas no mundo, tanto as que se movem como as que não se movem, são caracterizadas por instabilidade e desaparecimento.

Parem, agora!

Não falem!

O tempo passa.

Atravesso.

Este é o Meu Ensinamento final.

Tradução do inglês para o português de Monja Coen – São Paulo, Brasil, fevereiro de 2002.
Tradução do japonês para o inglês de Kazuaki Tanashi e Jonathan Condit – São Francisco, EUA, Maio de 1980.


Category: |
You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.
Bookmark and Share

0 comentários:

:)) ;)) ;;) :D ;) :p :(( :) :( :X =(( :-o :-/ :-* :| 8-} :)] ~x( :-t b-( :-L x( =))

Postar um comentário

Página Anterior Próxima Página Home
subir