18:47 | Author: Mundo Zazen


Se alguém se liberta dos sofrimentos do samsara, deverá aprender o caminho direto para transformar-se em Buddha. Este caminho não é diferente daquele da compreensão de sua própria mente. Agora, o que é a mente? É a verdadeira natureza de todos os seres sencientes, aquela que existiu antes de nossos pais nascerem e por isso antes de nosso próprio nascimento, e existe presentemente, imutável e eterna. Então, é chamada a face de alguém antes de seus pais terem nascido. Esta mente é intrinsecamente pura. Quando nascemos ela não é criada de novo, e quando morremos ela não se extingue. Não faz distinção entre masculino e feminino, nem possui nenhuma coloração do bom ou do mau. Não pode ser comparada com coisa alguma, e por isso é chamada de natureza búddhica. Não obstante, incontáveis pensamentos surgem dessa natureza do "eu", como as ondas levantam-se no oceano ou as imagens se refletem no espelho. Se quiser compreender sua própria mente, você deverá em primeiro lugar olhar para dentro da fonte de onde brotam os pensamentos. Dormindo ou trabalhando, em pé ou sentado, pergunte-se profundamente "O que é minha mente?" com um desejo intenso de resolver este problema. E a isto que se chama "treinamento", "prática", "desejo da verdade" ou "sede de percepção". O que se denomina zazen nada é mais do que olhar para dentro de sua própria mente. E melhor buscar sua própria mente com devoção do que ler e recitar inumeráveis sutras e dharani cada dia durante anos incontáveis. Tais esforços que não passam de formalidades, redundam em méritos, mas este mérito acaba e de novo você terá de experimentar o sofrimento dos três caminhos do mal. Porque o fato de alguém buscar sua própria mente leva finalmente à iluminação, esta prática é um pré-requisito para que se torne um Buddha. Não importa se cometeu ou as dez ações más ou os cinco pecados mortais; ainda assim, se você fizer voltar sua mente e se iluminar, instantaneamente um Buddha. Mas não cometa pecados e espere ser salvo pela iluminação [por efeito de suas próprias ações. Nem a iluminação] nem um buddha nem um ancestral poderá salvar uma pessoa que, iludida, segue por caminhos maus.

Imagine uma criança dormindo ao lado de seus pais e sonhando que está sendo batida ou sofrendo uma doença. Os pais não podem ajudar a criança, não importa o quanto sofra pois não há quem possa entrar na mente de alguém que sonha. Se a criança pudesse acordar-se, conseguiria libertar-se
do seus sofrimentos, automaticamente. Da mesma forma, alguém que compreende que sua mente Buddha, liberta-se instantaneamente dos sofrimentos que surgem da [ignorância da lei da] mudança incessante do nascimento e da morte. Se um buddha pudesse evitar, você pensa que ele permitiria que um único ser sensível caísse no inferno?. Sem a auto percepção não se pode compreender coisas como estas.

Que espécie de mestre é este, que agora mesmo vê cores com os olhos e escuta vozes com os ouvidos, que agora levanta as mãos e move os pés? Sabemos que estas são funções de nossa própria mente, mas ninguém sabe precisamente como são efetuadas. Pode-se assegurar que por detrás destas ações não existe entidade, entretanto é óbvio que estão sendo realizadas espontaneamente. Pelo contrário, poder-se-á assegurar que estes são os atos de alguma entidade; contudo, esta entidade está invisível. Se alguém encara este problema como incompreensível, todas as tentativas de raciocinar [para encontrar uma resposta] cessarão e ele ficara perdido sem saber o que fazer. Neste estado favorável, aprofunda-se sempre mais o anseio incansavelmente, até o extremo. Quando o profundo questionamento penetrar até o fundo, e o fundo for arrombado, não permanecerá nem a menor das dúvidas de que sua mente é o próprio buddha, o universo-vazio. Então não haverá mais ansiedade sobre a vida e a morte, nem verdade alguma a buscar.

Num sonho você poderá perder-se e não saber mais o caminho para casa. Você pede a uma pessoa que lhe indique como voltar ou você reza a Deus ou a Buddha que o ajude, mas mesmo assim não consegue voltar para casa. Logo que sai do estado de sonho, porém, descobre que está na sua própria cama e compreende que o único meio que teria para voltar a casa, seria o de acordar-se. Esta [espécie de despertar espiritual] é chamada "volta à origem" ou "renascimento no paraíso". É a forma de percepção interior que se pode conseguir com algum treinamento. Virtualmente todos os que gostam do zazen e se esforçam na sua prática, sejam leigos ou monges, compreenderão até este grau. Mas mesmo esse despertar [parcial] não pode ser conseguido, exceto pela prática do zazen. Você estaria porém cometendo um grave erro, se achasse que isto foi uma verdadeira iluminação na qual não há dúvida alguma sobre a natureza da realidade. Seria como um homem que, tendo encontrado cobre, abandonasse o desejo de procurar ouro.

A respeito dessa percepção, questione-se sempre mais intensamente desta maneira: "Meu corpo é como um fantasma, como bolhas num riacho. Minha mente olhando-se intimamente, é tão informe quanto um espaço vazio, ainda que em alguns lugares dentro dela sejam percebidos sons. Quem está escutando?" Se você questionar-se desta forma com profunda absorção, nunca diminuindo a intensidade de seu esforço, sua mente racional acabará por se exaurir e somente o questionamento no nível mais profundo permanecera. Finalmente, perderá a consciência do seu próprio corpo. Suas idéias e concepções há muito tempo sustentadas, extinguir-se-ão depois do absoluto questionamento da mesma forma que cada gota de água desaparece de um barril com o fundo arrombado, e seguir-se-á a perfeita iluminação, como flores que se abrem repentinamente nas arvores secas.

Com essa percepção você conquista a verdadeira emancipação. Mas, mesmo agora, abandone sempre de novo o que foi compreendido, voltando-se para aquilo que compreende, isto é, para a raiz mais profunda, e resolutamente vá avante. Sua natureza do "eu" então ficara mais brilhante e mais transparente a medida que seus sentimentos ilusórios se desfazem como uma pedra preciosa que adquire brilho sob repetidos polimentos, até que finalmente ilumina o universo inteiro. Não duvide disto! Se seu desejo for excessivamente fraco para conduzi-lo a este estado na vida presente, você indubitavelmente chegará com facilidade à compreensão do "eu" na próxima, contando que ainda esteja engajada neste questionamento na ocasião da morte, assim como o trabalho de ontem feito pela metade, é terminado hoje facilmente.

Enquanto você estiver fazendo o zazen, nem despreze nem acaricie os pensamentos que surgem; apenas busque sua mente, a própria fonte destes pensamentos. Deve compreender que tudo o que aparece na sua consciência, ou é visto por seus olhos, d uma ilusão, de uma realidade que não dura. Por isso não deve nem amedrontar-se nem fascinar-se por tais fenômenos. Se conservar sua mente tão vazia quanto um espaço, sem manchar-se com assuntos estranhos, nenhum mau espírito poderá perturbá-lo, mesmo no seu leito de morte. Enquanto se empenhar no zazen, porem, não conserve nenhum

Kannon Bodhisattva é assim chamado porque atingiu a iluminação pela percepção [isto é agarrando a fonte] dos sons à sua volta.

No trabalho, no descanso, nunca deixe de se esforçar por compreender quem é que escuta. Mesmo que seu questionamento se torne quase inconsciente, você não descobrirá quem é que escuta, e todos os seus esforços serão frustrados. Entretanto, os sons poderão ser escutados, por isso questione-se num nível ainda mais profundo. Finalmente cada vestígio de consciência do "eu" desaparecera e sentir-se-á como um céu sem nuvens. Dentro de si mesmo não encontrará mais o "eu", nem descobrirá ninguém que escute. Essa mente é como um vazio entretanto não tem nenhum ponto que possa ser chamado de vazio. Este estado muitas vezes tomado erroneamente por auto-compreensão. Mas continue a perguntar-se ainda mais intensamente, "Agora, quem é que escuta?" Se você penetrar e penetrar no fundo desta questão, esquecido de tudo mais mesmo esta sensação de vazio desaparecerá e ignorará tudo mais - uma total escuridão prevalecerá. [Não pare aqui, mas] continue a perguntar com toda sua energia, "O que é que escuta?" Somente quando exauriu completamente o questionamento é que a pergunta irromperá: agora sentir-se-á como um homem que volta da morte. S a verdadeira percepção. Verá os buddhas de todos os universos face a face e os ancestrais do passado e do presente. Examine-se com este kôan: "Um monge perguntou a Joshu: "Qual é o sentido da vinda de Bodhidharma à China?" Joshu respondeu: "O carvalho no jardim". Se este kôan deixá-lo com mínima dúvida, precisa recomeçar a questionar-se, "O que é que escuta?"

Se você não chegar à compreensão nesta vida presente, quando chegará? Tendo morrido não será capaz de evitar um longo período de sofrimento nos três caminhos do mal. O que está obstruindo a realização? Nada além de seu pusilânime desejo de verdade. Pense nisto e esforce-se ao máximo.

(Tokusho, Bassui. O Sermão. In: Kapleau, Philip. Os Três Pilares do Zen. Coleção Corpo e Alma.
Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1978. Pág. 170-173. Clique aqui para adquirir o livro.)

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